Entrevista para Jornal Cândido Janeiro 2019




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Perguntas feitas pelo Daniel Tozzi, da equipe do Jornal Cândido sobre o Prêmio Paraná de Literatura 2018.


1) Como é a sua experiência e relação com a literatura? Já teve trabalhos
publicados antes?

Costumo dizer que tenho sido um não-escritor há um tempo, em relação a como eu  vivi experiências de escrever ficção (romance e contos). Foi um caminho longo nessa  escrita de ficção até decidir que havia um material que poderia ser publicado. Não penso  que sou experiente ou algo do tipo com a escrita, mas há um atravessamento muito  íntimo e afetivo entre o que tenho sido (morando no Piauí - em Batalha e Teresina - até  2014 e depois me mudando para a cidade de São Paulo) e o que venho escrevendo especialmente nos três últimos anos. Costumo dizer que tenho uma relação íntima  também com livros e literatura desde cedo, como leitor, o que não quer dizer que  conheça livros e a escrita tão bem quanto gostaria.


Já escrevi também resenhas e um conto para a São Paulo Review, página à qual 
tenho sido colaborador desde 2014, mais ou menos. Mas publicado, de fato, tive apenas 
um conto numa revista da Fundação Cultural Monsenhor Chaves (da Secretaria de  Cultura do Piauí), em Teresina, a partir de um concurso no qual fiquei em segundo lugar  (isso há muito tempo!)

2) Os contos reunidos em "Todo amor que inventamos para nós" foram escritos 
em que período e durante quanto tempo?


Escrevi um dos contos em outubro de 2017 e tinha uma ideia vaga do que poderia ser o  livro. Conversei com o escritor e amigo Marcelo Maluf, num Grupo de Orientação a 
Trabalhos Literários que ele tinha, e onde eu já havia trabalhado um romance que 
escrevi. Lá, o Marcelo me ajudou com algumas reflexões, antes das atividades naquele  grupo serem encerradas. Dei prosseguimento ao livro, e em dezembro daquele mesmo  ano, após me permitir acessar algumas experiências muito particulares e atravessadas  direta e indiretamente por violências e abusos (pessoais, de pessoas próximas, e outras 
mais distantes) algumas narrativas tornaram-se mais possíveis de serem escritas. Foi meio que num jorro, e acabei escrevendo a maior parte dos contos no final do mês de dezembro, finalizando em janeiro de 2018. Depois revisei, entreguei para amigas mais próximas, lemos trechos e refletimos sobre aspectos profundos dos contos, para depois  eu revisar novamente até senti-los sempre incompletos. Finalizei o livro em fevereiro de  2018 pensando em dois editais de prêmios voltados para autorxs iniciantes.

3) No período de escrita dos textos você costumava ler algum (ns) autor (es) 
específicos que te influenciaram na produção dos contos?

No período final de escrita do livro, eu tinha começado a ler "O caminho do artista", da  Julia Cameron, que embora seja considerado “autoajuda literária” (como já ouvi alguém nomeá-lo), contribuiu para que eu pudesse acessar muitos conteúdos subjetivos que precisavam ser desenrolados de alguns "bloqueios" que eu experimentava. Além disso, eu estava lendo com mais frequência livros sobre fotografia (outro jeito de contar histórias pelo qual tenho paixão desde adolescente) e tinha começado a ler “O ministério da felicidade absoluta” da Arundhati Roy. Mas a influência maior dos contos  veio de desgastes de um término de relacionamento, que era recente na época,
lembranças e violências de infância tanto minhas quanto de amigxs próximxs que me  exigiram reflexões sobre o que era afeto, amor, família, gênero, sexualidade. Enquanto  amadurecia a ideia do livro, reli escritos que, vez ou outra, releio, como os da Elvira  Vigna, Beatriz Bracher e Cortázar. Outras leituras muito estimulantes no início da  composição do livro foram as ficções da Lydia Davis e Miranda July. 

Mas outras linguagens atravessaram muito o processo do livro como documentários e 
peças de teatro.
 
4) Como você definiria "Todo amor que inventamos para nós" para o leitor? Para 
quê e para quem você escreveu?


Difícil tentar definir esses contos. Talvez eu não saiba responder com certeza. O que 
consigo dizer agora é que quando terminei o livro, eu e duas amigas de São Paulo 
(Aline e Adriana) e uma amiga do Piauí (Janna) conversamos muito sobre os contos. 

Depois disso talvez alguns detalhes, como uma possível unidade de temas no livro foi se  tornando mais clara. As reflexões sobre a unidade do livro de contos começaram em um romance (inédito) que escrevi, não como continuidade. Parecia haver um percurso do  personagem desse romance que vive uma relação familiar complicada de amores  sacrificados numa casa de origem (posso dizer que esse é um dos temas da minha vida:  O que define casa, família, identidade e gênero?) que segue outro caminho e parece  encontrar-se nas casas dos contos de "Todo esse amor que inventamos para nós". 

Isso tudo foi um material um tanto inconsciente de início. Se fez algum sentido, foi só depois de ouvir o que os personagens contavam e o que minhas amigas diziam das leituras que fizeram. 

Estou constantemente refletindo, tanto na Literatura como na Psicologia (cada uma com suas particularidades), sobre outras possibilidades de vivências familiares, e comecei a pensar que talvez esse livro de contos tenha narrativas e personagens com gêneros e sexualidades que não se adequam a casas e famílias heteronormativas e por isso sofrem, 
choram, são apagadas e também morrem. E sobre isso é necessário mantermos reflexões constantes considerando o que temos vivido no Brasil há muito tempo e especialmente no momento atual, com discursos sobre o que é e o que não é uma família “normal”, por exemplo.

Não sei para quê escrevi esse livro. Talvez eu tenha escrito esse livro para alguns 
amigos e amigas de infância. Talvez eu tenha escrito esse livro para sobreviver mais um dia. Talvez tenha escrito como um exercício-experiência em que a memória precisava acreditar que tudo que dói é sempre mentira (porque escrevi esse livro com tudo doendoem mim). Não sei ao certo. 

Sei que consegui escrever esse livro porque antes dele escrevi um romance (não publicado), como já falei, e eu só consegui escrever esse romance porque me permiti viver a minha identidade e experiência homoafetivas (bicha, me chamavam de bicha, a vida toda, e doía, agora não mais), a minha sexualidade,  vivências atravessadas por violências e desistências, e também afetos. Talvez eu tenha escrito esse livro porque num término de um relacionamento recente naquela época a 
minha intimidade foi exposta a vivências perversas que não eram minhas e não as 
escolhi como parceiras, e isso me remeteu a memórias de infância e outras dores, das 
quais nunca escapei.

Acho que antes de vir morar em São Paulo eu vivia muito preso a muitos receios, 
principalmente por causa de relações complicadas na família e outras relações fora dela, outras normas ditadas pelos espaços que frequentei. Então quando cheguei a São Paulo (tendo morado a vida inteira entre Teresina e Batalha – cidade do interior, 26.000 mil habitantes - no Piauí), como bicha e não-escritor, a escrita já era outra. Eu já tinha começado a me permitir viver essa identidade e afetos quando encontrei o Grupo de Orientação a Projetos Literários do Marcelo Maluf, e isso foi muito importante para a escrita do romance (não publicado) e para que eu pudesse começar a me pensar como 
um escritor e a me aproximar mais dessa escrita. Aí sim comecei a permitir que as 
narrativas de ficção que circulavam pelo meu corpo e afetos começassem a acontecer.

Lembro que tem um trecho de uma entrevista do Cortázar em que ele fala (não assim como eu vou contar agora, ele conta de outra forma bem mais inteligente) que a escrita de alguns de seus contos foi o que o ajudou a elaborar alguns conteúdos particulares como uma “autoanálise”. A partir disso penso que escrevi esse livro não como catarse, porque não acho que esse é o lugar da literatura e nem da escrita, mas o processo de escrever esses contos foi buscar vozes e narrativas (num exercício) e que de alguma forma conversavam com as lembranças e rompimentos que eu vivi/vivia. Então eu não sei bem, talvez eu tenha escrito esse livro para mim também, de alguma forma.

Depois que terminei o livro, quando minhas amigas conversaram comigo e me disseram 
o que pensavam, inclusive que acreditavam que os contos poderiam tocar algumas 
pessoas, fiquei pensando que talvez sim, que esse livro chegaria às pessoas pelas vias dos afetos e fazia sentido os contos estarem vivos e incompletos como eu. 
Então, não sei bem, talvez eu tenha escrito esse livro para eu ser outro. Acho que é isso 
mesmo: escrevi esse livro de contos para ser outro.

5) O quão importante foi para você ter vencido o Prêmio Paraná de Literatura? 
Foi a primeira vez que você participou do concurso? Na edição de 2018 você 
inscreveu trabalhos em outras categorias além da de contos?

É sempre muito difícil para uma autora e autor estreante, para livros novos não 
nascidos, ser publicado, encontrar espaço, ser divulgado; acho que piora se essa 
escritora e escritor, mesmo crendo na potência de suas narrativas, não tem tanta 
desenvoltura (como eu) para buscar editoras e editores. Até hoje só falei com uma editora sobre um romance não publicado, e quando arrisquei, as respostas sobre a crise do mercado, outros projetos prioritários, e uma espera sem fim, me desanimaram. Então um prêmio desses importa muito pela credibilidade e pelo reconhecimento. Você 
adquire um tipo de selo de qualidade e o nome dx escritorx parece começar a circular mais, e assim outras pessoas começam a conhecer um pouco mais esses nomes. É uma chance única para novos autores que não conseguiram publicar ainda, e também outra possibilidade para autores já “consagrados”. O valor em dinheiro é um grande incentivo também, e algo muito raro para algumx escritorx conseguir só com a publicação de um 
livro. Não conheço outro prêmio nacional para autoras e autores estreantes (livros não publicados) com esse valor em dinheiro.

Esse tipo de premiação possibilita outra projeção para as obras publicadas e isso é 
inegável. Fiquei feliz e assustado (precisei ser empurrado para fora desse susto por 
algumas amigas depois que soube do resultado).

Além disso, para mim, estar entre vencedorxs como Caetano Galindo, José Roberto Torero, Vanessa Bárbara, Alexandre Vidal Porto, Adriane Garcia e Sônia Barros, é emocionante.

Tentei ano passado e em 2018 esse mesmo prêmio com um romance inédito. Com o 
"Todo esse amor que inventamos para nós" tentei o Prêmio Sesc também em 2018, mas 
não fiquei finalista (o romance inédito mencionado ficou entre os 25 finalistas do 
Prêmio Sesc). São os únicos dois editais que concorri. 

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